Case
A tecnologia é o novo fogo. E estamos entregando fósforos digitais para crianças — e para nós mesmos.
Publicado em 28 de Outubro de 2026

Por Brenda Donato Endo

Antes que alguém me acuse de querer cancelar a internet, como se isso fosse possível, desejável ou minimamente coerente com alguém que está escrevendo sobre tecnologia, vamos combinar uma coisa: tecnologia não é vilã. Ela aproxima quem está longe, amplia acesso a conhecimento, cria oportunidades de trabalho, facilita tratamentos, sustenta comunidades e faz pequenos milagres logísticos (inclusive o de entregar um carregador na sua casa às 23h47). O problema não é a tecnologia. O problema é que ela evoluiu em velocidade de foguete, enquanto nossa maturidade para usá-la continua no nível critico de “aceitar todos os cookies” e clicar em todos os “phishings”.

Talvez a melhor metáfora para entender essa encrenca não esteja no futuro, mas no passado: o fogo. O domínio do fogo mudou a trajetória humana. Cozinhar tornou os alimentos mais fáceis de mastigar e digerir e, segundo uma hipótese relevante na antropologia evolutiva, pode ter ampliado a disponibilidade de energia que sustentou mudanças decisivas na nossa evolução. O fogo nos aqueceu, protegeu, reuniu, ensinou a conversar em volta de algo comum e ajudou a nossa espécie a avançar. Mas ele também queimava, sufocava e matava. Ninguém resolveu isso fazendo uma campanha de conscientização com a frase “o fogo é ruim”. A humanidade fez algo mais inteligente: aprendeu a respeitar a potência daquilo que tinha criado. Criou técnicas, limites, distância, transmissão de conhecimento. Em resumo: aprendeu a usar sem ser destruída pelo uso.

A tecnologia é o nosso fogo contemporâneo. E, por enquanto, parece que estamos entregando fósforos digitais para crianças, adolescentes e adultos, deixando o algoritmo decidir o humor da casa e chamando isso de “normal da geração”. Só que normal não é sinônimo de saudável. E internet não é sinônimo de intimidade.

A palavra dopamina virou a celebridade neuroquímica das redes. Ela aparece em vídeos de trinta segundos, acompanhada de promessas como “zere sua dopamina”, “faça um detox” ou “abandone tudo que te dá prazer”. Calma. Se conseguíssemos zerar a dopamina, não estaríamos em paz. Estaríamos provavelmente sem motivação para levantar da cama, aprender, criar, insistir, desejar ou terminar aquela planilha que vence hoje. A dopamina participa de circuitos ligados à motivação, à aprendizagem por recompensa e à antecipação de resultados; ela ajuda o cérebro a perceber o que parece relevante e a repetir comportamentos que foram associados a recompensas. Ela não é a inimiga. O problema começa quando empresas com milhares de engenheiros, dados em escala planetária e um entendimento muito refinado do comportamento humano decidem que a nossa atenção precisa ser capturada a qualquer custo.

Sean Parker, primeiro presidente do Facebook, explicou isso de uma forma quase didática e bastante constrangedora para quem ainda acredita que redes sociais existem apenas para “conectar pessoas”. Em 2017, ele descreveu a lógica de fazer usuários consumirem o máximo possível de tempo e atenção consciente, oferecendo de vez em quando um “pequeno estímulo de dopamina” quando alguém curte ou comenta uma publicação.

Ele chamou isso de “ciclo de feedback de validação social” e reconheceu que o modelo explorava “uma vulnerabilidade da psicologia humana”. Traduzindo para o português que entendemos entre um café e outro: a plataforma não quer apenas que você se conecte. Ela quer que você volte. Depois volte de novo. E mais uma vez, só para conferir se alguém respondeu. Aquele “vou só dar uma olhadinha” muitas vezes não é uma falha moral. É o encontro entre um cérebro humano perfeitamente normal e um ambiente cuidadosamente desenhado para não ter fim.

A questão que realmente me inquieta não é só o tempo que passamos diante da tela. É o que deixamos de viver enquanto ela ocupa o centro de tudo. Podemos estar hiperconectados e profundamente sozinhos. Podemos receber dezenas de reações e não ter ninguém para ligar quando a vida desmonta. Podemos acompanhar cada passo de pessoas que mal conhecemos e, ainda assim, não perceber que quem senta ao nosso lado está triste. Porque uma curtida é uma reação. Presença é uma relação.

Não estou negando a potência das conexões digitais. Elas podem ser ponte, apoio, comunidade e pertencimento. Para muita gente, são mesmo. Mas uma ponte não substitui uma casa. Uma conversa por mensagem não substitui o olhar que percebe que o “tá tudo bem” veio com a voz quebrada. Um emoji de coração não substitui sentar ao lado. Uma IA pode organizar suas ideias, mas não sente o peso do seu silêncio. E uma videoconferência, por mais eficiente que seja, ainda não inventou o abraço que acontece depois de uma conversa difícil.

Gordon Neufeld e Gabor Maté, em Hold On to Your Kids, defendem a importância dos vínculos de apego com adultos responsáveis e alertam para os efeitos de uma orientação excessiva pelos pares na formação emocional. O livro foi escrito antes de as redes sociais dominarem a vida cotidiana e depois recebeu atualizações para o mundo digital. Hoje, os pares não estão apenas no recreio, no condomínio ou no clube. Eles estão no bolso, vinte e quatro horas por dia, com filtros, números, tendências e um tribunal de aprovação funcionando sem intervalo para o almoço. Crianças e adolescentes precisam de pertencimento, claro. Mas pertencimento não pode significar viver em campanha eleitoral permanente para ser aceito.

Por isso, a pergunta não deveria ser apenas “quantas horas de tela são permitidas?”. A pergunta adulta é outra: o que essa tela está ocupando? Ela está ocupando sono? Está ocupando almoço em família? Está ocupando brincadeira, tédio, movimento, leitura, conversa, natureza, esporte, silêncio e convivência? Porque, quando isso acontece, não estamos falando apenas de tecnologia. Estamos falando de substituição de vida.

A psiquiatra Shimi Kang propõe que, para prosperar no mundo digital, precisamos compreender como corpo e mente funcionam e usar esse conhecimento para cultivar hábitos saudáveis. Na prática, isso pede algo muito menos glamouroso do que baixar mais um aplicativo de produtividade: presença adulta, rotina, limite e vínculo. Limite não é castigo; é cuidado com moldura. É dizer que o celular não precisa dormir no quarto como se fosse um marcapasso emocional. É escolher refeições em que as pessoas estejam na mesa e não numa reunião paralela com o feed. É garantir, todos os dias, algum tempo em que o corpo se mova, o olhar encontre o mundo e alguém seja escutado sem competir com uma notificação. É, principalmente, parar de exigir que crianças desenvolvam uma autorregulação que muitos adultos ainda não praticam. Não adianta pedir para o filho largar o celular enquanto você responde e-mails no meio da conversa dele. A educação mais eficiente não está no discurso. Está no comportamento que a criança vê repetidamente.

E então chegamos à inteligência artificial. Ela vai mudar educação, trabalho, saúde, criatividade e comunicação. Já está mudando. Negar isso seria como olhar para o fogo e afirmar que uma pedra quente jamais alteraria nosso futuro. A questão não é se usaremos IA. A questão é o que estamos terceirizando quando a usamos. Se ela ajuda a organizar ideias, amplia acessibilidade e libera tempo de burocracia para que possamos cuidar melhor de pessoas, ela cumpre um papel maravilhoso. Mas, se a usamos para evitar toda conversa difícil, substituir toda elaboração pessoal, simular todo afeto e preencher toda solidão, talvez estejamos usando inteligência artificial para justificar uma espécie de abandono natural. Ninguém precisa de mais uma ferramenta que nos torne eficientes para tudo e presentes para nada.

Ser humano é muito menos sobre responder rápido e muito mais sobre sustentar o que não cabe em uma resposta pronta: ambiguidade, frustração, afeto, conflito, escuta, reparação e silêncio. A IA pode nos tornar mais capazes. Mas só as relações nos tornam mais humanos.

Não precisamos demonizar a tecnologia, montar um acampamento antissinal de Wi-Fi ou voltar a mandar pombos-correio. Precisamos fazer com ela o que a humanidade fez com o fogo: aprender a usar potência com responsabilidade. Uma vida digital saudável não é uma vida sem telas. É uma vida em que a tela não é a única fonte de prazer, aprovação, distração, pertencimento e descanso. Porque, quando tudo vem da tela a validação, a conversa, o entretenimento, o desejo e até o consolo a vida real começa a parecer lenta demais. E ela é lenta mesmo. É no tempo dela que alguém aprende a amar, a frustrar-se sem quebrar, a reparar um erro, a ouvir uma opinião diferente, a olhar nos olhos, a brincar sem registro e a descobrir que não precisa ser a pessoa mais interessante do ambiente para pertencer a ele.

O fogo nos fez avançar quando aprendemos a não brincar com ele. A tecnologia também pode nos fazer avançar. Mas, para isso, vamos precisar parar de chamar de conexão aquilo que só está nos mantendo ocupados.

 

Referencias Bibliográficas:

 

KANG, Shimi. Tecnologia na infância: criando hábitos saudáveis para crianças em um mundo digital. Tradução de Tássia Carvalho. São Paulo: Melhoramentos, 2021.

 

NEUFELD, Gordon; MATÉ, Gabor. Hold on to your kids: why parents need to matter more than peers. New York: Ballantine Books, 2006.

 

BROMBERG-MARTIN, Ethan S.; MATSUMOTO, Masayuki; HIKOSAKA, Okihide. Dopamine in motivational control: rewarding, aversive, and alerting.

 

Neuron, [S. l.], v. 68, n. 5, p. 815-834, 2010. DOI: https://doi.org/10.1016/j.neuron.2010.11.022. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3032992/. Acesso em: 13 ago. 2026.

 

CBS NEWS. Sean Parker: Facebook takes advantage of “vulnerability in human psychology”. CBS News, [S. l.], 9 nov. 2017. Disponível em: https://www.cbsnews.com/news/sean-parker-facebook-takes-advantage-of-vulnerability-in-human-psychology/. Acesso em: 13 ago. 2026.

 

WRANGHAM, Richard. Catching fire: how cooking made us human. New York: Basic Books, 2009.


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