Brasil enfrenta uma crise de saúde mental no trabalho, agora confirmada por números recordes. Em 2025, a Previdência Social concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária devido a transtornos mentais e comportamentais, um aumento de 15,66% em relação aos 472.328 casos de 2024. Os dados, divulgados pelo Ministério da Previdência Social¹, expõem as consequências de um modelo de trabalho que chegou ao limite.
A escalada foi o catalisador para uma mudança regulatória crucial. A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) agora obriga todas as empresas a incluir os riscos psicossociais — como estresse crônico, burnout, ansiedade e assédio — em seu Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO).
Segundo os dados oficiais, os transtornos de ansiedade e os episódios depressivos lideram as causas de afastamento. Além disso, a crise tem um recorte de gênero nítido: 63% dos benefícios foram concedidos a mulheres1.
Na prática, as empresas agora são legalmente responsáveis por identificar, avaliar e implementar medidas para controlar fatores que podem levar ao adoecimento mental de seus colaboradores. Trata-se de um avanço sem precedentes que reconhece, de forma oficial, que o esgotamento, a ansiedade e a depressão não são meras questões individuais, mas podem ser consequência direta de um ambiente e de condições de trabalho tóxicas. O desafio é transformar a regra em cultura organizacional.
Cumprir a NR-1 vai além de relatórios ou checklists de conformidade. Requer ações que efetivamente promovam ambientes de trabalho saudáveis. Entre as iniciativas com maior impacto estão:
- Revisão de metas e cargas de trabalho: metas inalcançáveis e sobrecargas crônicas são fatores de risco claros para esgotamento e ansiedade.
- Construção de uma cultura de apoio emocional: organizações que estimulam diálogos abertos, com escuta ativa e apoio psicológico, conseguem detectar sinais de estresse antes que se tornem doença.
- Capacitação de líderes: gestores treinados para reconhecer e responder a sinais de desgaste emocional são essenciais para interromper ciclos de tensão antes que se agravem.
- Benefícios que reforcem o bem-estar: disponibilizar acesso facilitado a apoio emocional contínuo, orientações especializadas e programas de cuidado ao colaborador contribui tanto para prevenção quanto para recuperação.
A NR-1 atualizada representa mais do que um ajuste técnico: é um chamado à transformação cultural nas relações de trabalho. O crescimento dos afastamentos por questões mentais é um sinal claro de que ambientes de trabalho desequilibrados têm consequências profundas, tanto para indivíduos quanto para organizações.
Empresas que enxergarem essa diretriz não como uma obrigação, mas como uma oportunidade, sairão na frente. Elas construirão equipes mais resilientes, engajadas e inovadoras. Acima de tudo, cuidarão das pessoas que, no fim das contas, são a verdadeira essência de qualquer organização.
Por Eduardo Mangione, CEO do Grupo EP
Referência:
¹Ministério da Previdência Social. Previdência Social concede 546.254 benefícios por incapacidade temporária por transtornos mentais e comportamentais. Disponível em https://www.gov.br/previdencia/pt-br/noticias/2026/janeiro/previdencia-social-concede-546-254-beneficios-por-incapacidade-temporaria-por-transtornos-mentais-e-comportamentai